Comunicado oficial — Campinense Clube
Campina Grande, 1º de julho de 2026 — Em sessão extraordinária realizada nesta quarta-feira, o Conselho Deliberativo do Campinense Clube aprovou, por 23 votos a favor e 2 abstenções, a destituição definitiva de Flávio Gaudêncio Torreão do cargo de Presidente do Conselho Diretor e de Wellington Monteiro da Silva do cargo de Diretor de Administração e Finanças. A decisão está consolidada na Resolução nº 002/2026 – CDelCC e encerra um processo de apuração conduzido pelo Conselho desde maio deste ano, com participação de 25 conselheiros — quórum qualificado exigido pelo Estatuto para deliberações dessa natureza.
Com a destituição, o Vice-Presidente José Wiliam Simões Nilo assume, em caráter definitivo, a Presidência do Clube, com plenos poderes de gestão, cabendo ao dirigente juntamente com os seus pares de diretoria dar continuidade à normalização administrativa e financeira da instituição.
Como o processo começou
Em 21 de maio de 2026, diante de um conjunto de irregularidades identificadas na gestão financeira do Clube, o Conselho Deliberativo determinou o afastamento preventivo dos dois dirigentes, como medida cautelar destinada a permitir uma apuração isenta dos fatos, resguardando o pleno direito de defesa. Para conduzir essa apuração, foi designado um Relator, com poderes para colher provas, ouvir funcionários e solicitar documentos aos próprios afastados.
Ao longo do processo, os dirigentes afastados dispuseram, ao todo, de 45 dias para apresentar esclarecimentos e contestar, especificamente, cada um dos fatos que motivaram o afastamento — prazo que o Conselho considerou amplo e compatível com as garantias do contraditório e da ampla defesa previstas no Estatuto do Clube.
Nesse período, os dirigentes apresentaram prestações de contas referentes aos exercícios de 2024 (que já havia sido entregue), 2025 e parte de 2026, além de um ofício tratando de bens do Clube que estavam sob a guarda de um deles. Esses documentos, contudo, não abordaram, ponto a ponto, os fatos que fundamentaram o afastamento. Ou seja, embora tenham se manifestado sobre outros assuntos, os dirigentes destituídos não apresentaram uma defesa técnica que contestasse, de forma específica, as irregularidades apuradas.
O que a apuração constatou
O relatório conduzido pelo Conselheiro Daniel Fernandes, designado Relator após a renúncia do conselheiro que iniciou os trabalhos, reuniu documentos, ofícios e depoimentos que permitiram ao Conselho Deliberativo formar convicção sobre os seguintes pontos:
Salários em atraso, apesar dos recursos disponíveis. Em abril, o então presidente confirmou ao Conselho que o Clube devia dois meses de salário aos funcionários fixos e se comprometeu a quitar o débito assim que recebesse a segunda parcela do patrocínio da Prefeitura de Campina Grande. Os recursos foram recebidos, mas os salários não foram pagos: o atraso chegou a três folhas em aberto,com ao menos um funcionário acumulando quatro meses sem receber. Funcionários chegaram a ser despejados por atraso no aluguel, a correr risco de perder o veículo pessoal e a enfrentar privação de necessidades básicas.
Recursos recebidos não foram utilizados para pagamento dos débitos. Entre março e maio de 2026, o Clube recebeu cerca de R$ 690.820,72, entre renda de jogos, repasse do Mecanismo de Solidariedade da FIFA, patrocínio municipal, Timemania e publicidade — quantia que, somada, superou as despesas apuradas para o mesmo período, de aproximadamente R$ 660.000,00. Ainda assim, nenhum dos débitos em aberto foi quitado: nem a folha dos funcionários fixos, nem o saldo devido a atletas e comissão técnica do Campeonato Paraibano, nem os honorários dos advogados que atuaram no Mecanismo da FIFA, nem a regularização dos depósitos judiciais do processo trabalhista que protege o patrimônio do Clube.
Dívidas com Fornecedores de itens de alimentação do Clube e uso de cartão pessoal de funcionários para custeio de gastos da Instituição. O Clube deixou passivo de aproximadamente R$ 91 mil com outros fornecedores — entre eles, fornecedores de hortifrúti e de carne, itens essenciais à alimentação diária de atletas e comissão técnica. Outras despesas correntes da instituição foram pagas com cartões de crédito pessoais de funcionários do Campinense, que arcaram com recursos próprios por obrigações que cabiam à gestão do Clube — e que, até o momento, não foram ressarcidos.
Dívida relevante não informada ao Conselho. Ficou demonstrada a existência de um instrumento de confissão de dívida, de aproximadamente R$ 250 mil, firmado pelo então presidente com o escritório de advocacia que atuou no processo do Mecanismo da FIFA, e que não foi mencionado na reunião em que o Conselho tratava justamente da destinação desses recursos. O Campinense Clube, inclusive, foi notificado extrajudicialmente para pagamento do referido débito.
Relatório financeiro prometido e não entregue. O compromisso de apresentar um relatório financeiro detalhado do período de setembro de 2025 a abril de 2026, assumido publicamente pelo então presidente, não foi cumprido, assim como não houve comprovação dos custos do Campeonato Paraibano de 2026 até a data final de 20 de junho de 2026. Vale ressaltar que, a solicitação deste relatório financeiro pelo Conselho Deliberativo, baseou-se no próprio estatuto social do clube, no seu artigo 80, alínea L.
Depósitos judiciais trabalhistas não realizados. Ficou constatado que os depósitos voluntários exigidos no âmbito de processo trabalhista em curso contra o Clube deixaram de ser feitos por meses, o que levou a Justiça do Trabalho a rever o protocolo que protegia o patrimônio do Clube contra penhoras, além de bloquear os recursos da Timemania — hoje a principal fonte de receita regular da instituição.
Restrição ao canal de fiscalização interna. Apurou-se que a Secretaria do Clube foi orientada, pelo presidente afastado, a não receber comunicações do Conselho Deliberativo sem autorização prévia da Presidência, o que dificultou, por um período, o acompanhamento das atividades administrativas pelo próprio Conselho Deliberativo, que acarretou em obstrução institucional.
Máquina de gelo retirada do Clube e usada em estabelecimento particular. O diretor de Administração e Finanças foi pessoalmente ao Clube retirar uma máquina de gelo de propriedade da instituição, alegando que o equipamento estava com defeito e precisava de manutenção. Funcionários do Clube, no entanto, afirmaram que a máquina estava em perfeitas condições no momento da retirada, e a apuração constatou que ela foi instalada e utilizada em um estabelecimento comercial do próprio dirigente. Na devolução, o dirigente assinou a declaração, constando, que o equipamento retornava “em plenas condições de uso, da mesma forma que saiu do Clube” — reconhecimento que contradiz sua própria alegação inicial de defeito, sem que tenha sido apresentado qualquer comprovante do suposto conserto. Das 28 bolas oficiais recebidas da Federação Paraibana de Futebol, por sua vez, apenas 25 foram devolvidas até a conclusão da apuração.
Em relação a cada um desses pontos, muito embora regularmente notificados, os dirigentes destituídos não apresentaram justificativa específica capaz de contestar os fatos apurados.
Por que o Conselho decidiu dessa forma
Para o Conselho Deliberativo, a destituição não representa um julgamento apressado, mas o desfecho de um processo conduzido com respeito ao devido processo administrativo, à ampla defesa e ao contraditório, ao longo de mais de 45 dias. A decisão busca, sobretudo, preservar o Campinense Clube: resguardar seu patrimônio, restabelecer a normalidade da gestão financeira, proteger os direitos de funcionários, atletas e comissão técnica, e assegurar que a instituição siga cumprindo suas obrigações trabalhistas e outras perante entidades como CBF, FPF e FIFA. A Resolução determina, ainda, que os dirigentes destituídos devolvam, em 48 horas, todos os documentos, bens e acessos institucionais eventualmente em sua posse — incluindo as bolas oficiais ainda não restituídas —, e que seja aberto procedimento específico para apurar a destinação de receitas não esclarecidas e o passivo remanescente com fornecedores, com especial atenção ao ressarcimento dos funcionários que utilizaram recursos próprios em benefício do Clube.
Próximos passos
Com o novo Presidente já em exercício, o Conselho Deliberativo reafirma seu compromisso com a transparência, a regularização financeira e institucional do Campinense Clube e com o bem-estar de todos que fazem parte da família raposeira — funcionários, atletas, comissão técnica e, especialmente, a torcida, que seguirá sendo informada sobre os próximos passos dessa reconstrução.
A íntegra da Resolução nº 002/2026 – CDelCC para download na parte superior desta matéria, para consulta na sede do Clube, e será encaminhada aos órgãos e processos competentes.
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